A sina do lobo… ou a história do egoísmo humano

Estranhamente, vou começar este texto falando de uma pequena ave.

Noutro dia, numa aldeia vizinha, vi um terreno com uma área de cardos sobre os quais um homem pulverizava uma quantidade generosa de herbicida. Podia fazer o serviço com meios mecânicos, com uma simples roçadora – parte do rol de ferramentas básicas de qualquer agricultor da região – mas isso talvez implicasse um esforço físico ligeiramente superior e, como é típico da nossa espécie, em vez do “menos fácil mas ético” optou sem pestanejar pelo “fácil mesmo que prejudicial”. Na tarde desse mesmo dia passei lá novamente e reparei num pequeno bando de pintassilgos que se alimentava naquelas flores de cardo, agora perigosamente embebidas em herbicida. As sementes de cardos são o alimento predileto do pintassilgo – uma colorida ave, de canto igualmente alegre, com apenas 18 gramas mas capaz de voar do Reino Unido até ao nosso país para aqui passar o inverno.

Este infeliz episódio marcou-me de forma especial; o casal de pintassilgos que nidificou frente à minha cozinha nesta primavera estava já atarefado a alimentar 4 crias, acabadas de sair do ovo. Não foi difícil juntar os pontos: na época em que o alimento é mais crítico para estas aves, alguém se encarregava de envenenar o sustento essencial à sua sobrevivência.

É esta atitude antropocêntrica, de profundo e destrutivo egoísmo da nossa espécie, que me choca. Aqui estamos nós no século XXI, munidos de um vasto conhecimento científico, mais do que conscientes dos erros cometidos no passado, a continuar a usar e abusar da natureza como se não houvesse outras espécies que também dela dependem. Como se não quiséssemos que houvesse amanhã.

E é isto que me leva ao lobo.

O lobo é talvez a espécie que melhor representa o nosso desleixo, desprezo, e até violência em relação ao meio natural. Não estarei muito longe da verdade se disser que este é o animal mais perseguido pelo Homem desde tempos imemoriais. Ele encerra todos os ódios desmedidos, medos injustificados e histórias mirabolantes que o nosso sofisticado cérebro alguma vez conseguiu produzir. Nem me vou dar ao trabalho de elencar as tradições, ditos populares, contos, filmes e tantas outras criações humanas que há muito vêm fomentando a diabolização da espécie. E, no entanto, ela é a origem única do animal que consideramos o nosso melhor amigo: todos os tipos de cães – grandes ou pequenos, pelo curto ou comprido, de qualquer raça ou simplesmente rafeiros – têm a sua antiquíssima matriz no lobo. Como foi possível esquecermos isto?

Infelizmente, as incongruências não se resumem a este triste esquecimento.

Com medo de possíveis ataques ao gado – tantas vezes mal protegido, com apenas um pastor e um pequeno cão – decidimos declarar guerra ao lobo. Construímos enormes fojos de pedra nas encostas das serras, montámos pesadas armadilhas de ferro sob a folhagem, laços de aço em cada trilho, organizámos batidas, matámos a tiro livremente e, depois, furtivamente. Um esforço infinitamente superior e mais caro do que aquele que seria necessário para proteger convenientemente o gado, acrescentando aos rebanhos mais um ou dois pastores e alguns cães de grande porte. De seguida, começámos a queixar-nos dos veados e dos javalis pelos danos provocados nas hortas e nos cereais (em campos não vedados que confinam com bosques), e também de um ou outro corço que teve o “descaramento” de roçar as hastes num castanheiro fino, partindo-o, como se o fizesse de forma intencional, e não por instinto, só para nos prejudicar. Curiosamente, todos estes animais são presas naturais do lobo – o animal que andámos séculos a tentar exterminar.

A natureza é sábia nos equilíbrios; o Homem, especialista nos desequilíbrios. 

A área onde vivo há 11 anos, mas que conheço desde 1989 – o Parque Natural de Montesinho, no Nordeste Transmontano – deu-nos importantes lições ao longo das últimas décadas: bastou um ligeiro aumento nas presas naturais do lobo para que os ataques aos rebanhos diminuíssem substancialmente. Não se trata de suposições, mas sim de conclusões com base científica. Enquanto esta realidade se instalava, os pastores passaram também a estar “equipados” com dois ou mais cães de gado transmontano, capazes de anunciar atempadamente a presença de lobos ou fazer-lhes frente se necessário – uma raça apurada para isto mesmo, cuja utilização foi fortemente incentivada.

Não há muito tempo, enquanto percorria um trilho próximo de uma aldeia do Parque, um pastor disse-me que sabia perfeitamente quando havia algum lobo por perto, porque os cães davam logo sinal de forma peculiar. Depois, confessou: “sempre que tenho uma ovelha mais velha ou doente e já não posso fazer nada dela, mato-a aqui mesmo e deixo-a para os lobos… eles também precisam comer”. Isto contrasta fortemente com outro depoimento que recolhi em 2000, quando preparava uma reportagem sobre a região, em que outro habitante me contava ter recheado um porco com veneno (que morrera dias antes de doença), para depois o abandonar no monte e assim matar os lobos. Aqui estava um bom exemplo do empenho obsessivo, movido apenas por ódio ancestral, já que este homem nem sequer tinha ovelhas, cabras ou qualquer gado que pudesse sofrer com a investida de uma alcateia!

Hoje, sei perfeitamente que a convivência entre estes habitantes do Parque – Homem e lobo – é muito mais pacífica do que era há 20 ou 30 anos; e sei que tal se deve, em grande parte, à assimilação gradual da mais básica das evidências, tal como aquele pastor a resumiu: “os lobos também precisam comer”.

A nível da proteção legal, o panorama parece estar a melhorar para o lobo-ibérico. Ao reforço recente da defesa do seu habitat em Portugal (onda a espécie está totalmente protegida desde 1990) somou-se também, este ano, a proibição da sua caça em todo o território espanhol – uma decisão com décadas de atraso, face à drástica diminuição do número de animais e à perda de território desde o início do século XX.

No entanto, as aparências enganam. Precisamente agora, com a legislação a ajudar, e numa altura em que devíamos estar mais cientes que nunca dos erros cometidos em matéria de ambiente e conservação da natureza, aparecem novas ameaças francamente preocupantes. Do lado espanhol, está a ser ponderado para Calabor (província de Zamora) um projeto mineiro a céu aberto que pode vir a ocupar uma área superior a 250 hectares; isto, num local classificado como Rede Natura 2000, apenas a 5 km do Parque Natural de Montesinho, muito próximo do Parque Natural de Sanábria e em plena Reserva da Biosfera Transfronteiriça Meseta Ibérica. Como se não fosse suficiente, o local previsto para a cratera da mina coincide com o território de uma das alcateias da região, que está devidamente documentada. Do lado português, ao mesmo tempo que o município de Bragança avança com uma mediática campanha de captação de turismo, justamente apoiada no seu património natural, parece também determinado em investir numa ligação rodoviária rápida com Puebla de Sanabria, que cruzará o Parque Natural de Montesinho e que irá fragmentar, inevitavelmente, o território do lobo e das respetivas presas naturais nesta área protegida – precisamente a região de Portugal onde a espécie tem o seu reduto mais estável e promissor.

É impossível compreender e aceitar isto. A fragmentação do território, que provoca o isolamento populacional, fenómenos de consanguinidade e acentuada redução da variabilidade genética, foi um dos principais fatores que levou uma outra espécie exclusiva da nossa Península – o lince-ibérico – a tornar-se no felino mais ameaçado do planeta, situação de onde ainda não saiu, apesar dos esforçados programas de reprodução e reintrodução.   

Com estas ameaças a pender sobre o território, estamos, uma vez mais, perante a postura antropocêntrica que cilindra tudo à sua passagem – a mesma do herbicida que descrevo no início deste texto, mas com dimensões muito mais trágicas. Não importa o grau de ameaça sobre as espécies, o cúmulo de leis que as protegem, a classificação de áreas protegidas, sejam elas de âmbito nacional, com base numa rede europeia de salvaguarda da biodiversidade ou até com a chancela da UNESCO. Tudo isto parece facilmente revogável face a projetos que apenas têm em conta as comodidades e as extravagâncias humanas, apoiados numa preocupante insensibilidade – ou mesmo empenho – dos decisores políticos. Ignoram-se os conselhos da ciência; não se procura um equilíbrio, uma razoabilidade, nem há vontade de fazer concessões ou “sacrifícios” por um bem maior – do qual, afinal, também dependemos enquanto espécie.

Não sei se alguma vez observaram um lobo. Até hoje, tive a sorte de ver seis, todos de perto, e nunca senti medo. São muito inteligentes, esquivos e, como qualquer animal silvestre que se cruza no nosso caminho, fogem rapidamente pouco depois de nos detetarem. Têm séculos de boas razões para isso: somos o animal mais perigoso que alguma vez habitou este planeta.

António Sá

Trás-os-Montes é suave e agreste, colorido e cinzento, expansivo e melancólico, religioso e profano. E tudo o mais que está pelo meio.
É a sazonalidade que lhe forja o carácter e marca o ritmo. E há vales, montanhas, planícies, rios, falésias e bosques. A gentes são boas e o tempo dura mais. E não tem eucaliptos.
Foi por isto que viemos para cá

www.antoniosa.com/tras-os-montes

IMAGEM: António Sá

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